Por António Eduardo Pereira, intervenção na XIVª Convenção do Bloco de Esquerda pela moção H
O discurso dominante – o discurso das classes dominantes – recorre, quase exclusivamente, ao crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) como indicador do desenvolvimento das sociedades, ignorando como é conseguido esse crescimento e apagando como é feita a distribuição do produto desse crescimento pela sociedade, de que forma ele contribui para a eliminação de carências básicas e correcção das desigualdades, para a sustentabilidade ambiental.
A esquerda não pode ter medo de dizer que a emancipação social não se mede pelo crescimento do PIB. Que são outros os instrumentos a que recorre para avaliar o caminho que estamos a seguir na construção de uma sociedade mais justa, mais democrática, mais igualitária, mais sustentável.
E essa construção, o resultado desta construção, já é visível hoje. O futuro que queremos já está a ser construído. Localmente, de forma dispersa, é certo, mas está em movimento. Está vivo hoje, por exemplo, nas formas de auto-produção, nas soluções energéticas locais e sustentáveis, no “comércio justo”, mercados sem intermediários, na auto-organização popular no combate aos incêndios. Existem hoje activistas que procuram, e passo a citar, «produzir e difundir informações, reflexões, e ferramentas que permitam entender melhor o sistema económico vigente e os seus impactos sobre a vida das pessoas e o meio ambiente, no Norte e no Sul geopolíticos, e abordar lutas e alternativas concretas aos mesmos.»
Precisamos de estar em todos os lugares de participação colectiva que combatem a atomização e o individualismo.
É fundamental reconhecermos esses sinais e difundi-los, pois fazem parte de um património que fundamenta a esperança. Faz parte da procura de novas formas de fazer política, de proximidade, de escuta activa das populações, da capacidade de deixar o centralismo e falar as linguagens do interior do país, das geografias e pessoas esquecidas, de dialogar.
Estaremos assim a promover a discussão de alternativas de fundo que configurem uma aprendizagem e crescimento colectivo na crítica radical do capitalismo. Por exemplo, o “decrescimento”. É, simultaneamente, um conceito e um movimento internacional de natureza política, cultural e prática, que denuncia e critica desde o início dos anos 2000 as bases do modelo socioeconómico dominante, nomeadamente o crescimento acelerado da produção e do consumo de bens e serviços. Devemos discuti-lo e estudar a sua aplicabilidade à nossa realidade, à realidade onde vivemos. Assim como devemos discutir os problemas concretos e construir soluções com quem lá vive, reforçar os canais de comunicação entre estruturas locais e nacionais, e garantir espaços de formação política para os militantes destas regiões. Estaremos assim a combater as profundas assimetrias territoriais que marcam o nosso país. O nosso desafio, o desafio do Bloco de Esquerda, é abrir portas a novas formas de fazer política e de repensar o socialismo.
Procuramos responder às necessidades reais das populações, através de alternativas democráticas e socialistas, ensaiando novas formas de pensar o território e de construir comunidade.
Une-nos – a nós todos – a urgência da transformação social e a necessidade de repensar caminhos para o fazer. Aqui estamos para a luta quando ela é mais necessária do que nunca.