
Por Frederico Mira George, texto escrito para uma intervenção na XIVª Convenção do Bloco de Esquerda pela moção H
1 Todos estaremos de acordo se afirmarmos que a Cultura está, deve estar, no centro das nossas prioridades políticas. No centro do nosso entendimento do mundo que nos rodeia e queremos transformar. É, de resto, banalizada a forma como se fala de «interesse cultural», «associação cultural», «intervenção cultural», «cultura a propósito disto-e-daquilo» e, no entanto, no nosso partido, o vazio que está criado é semelhante ao que existe no resto da sociedade e é isso que não pode deixar de ser corrigido.
Também aqui é Hora de Recomeçar.
2 Por Cultura, entenda-se o universo da nossa compreensão, da comunicação, das expressões e manifestações quotidianas da linguagem, a educação, as aprendizagens, os objectos com que lidamos quase sem disso nos darmos conta, as artes e os fabricos que delas emanam. É também tudo o que vemos ouvimos e lemos e, por isso, não podemos ignorar.
3 Lembro aqui as palavras de Eduarda Dionísio:
Falo de a gente abrir a caixa do correio e ter lá dentro prospectos com paisagens, dizeres, letras, promessas, preços, que têm formas e cores (alguém terá decidido com mais ou menos saber pô-las assim e não de outra forma e não de outra maneira), envelopes que têm uns formatos e não outros.
Falo de a gente estar em casa e usar garfos e facas, panelas, panos que um dia também foram imaginados, idealizados com lápis e papel e que só depois as máquinas reproduziram aos milhões.
Falo de a gente estar em casa e muitas vezes ter quadros ou cartazes pendurados nas paredes e eles viverem ali connosco, mesmo quando já nem olhamos para o que pusemos nas paredes.
Falo de a gente andar na rua e os prédios por onde passa, mesmo quando os projectos não foram assinados por arquitectos, terem também formas e cores, escolhidas, nascidas de um processo de trabalho, de uma necessidade, de um gosto.
Falo de a gente andar pelas ruas e as paredes umas vezes serem brancas, outras terem cartazes, às vezes restos de inscrições e de graffitis, ou datas e ideias, ou então reparar que a pintura é nova, a propaganda nova — e essa propaganda por letras e cores não é nunca apenas propaganda.
Falo de a gente andar nas ruas e passarem por nós autocarros e eléctricos mascarados de chocolates e de outros produtos que nos querem vender e assim desaparecerem janelas e nascerem letras com formas de pessoas e a cidade faz-se cenário.
4 Tudo isto é do domínio da Cultura e do domínio da Arte e é tudo isto que entra com peso na nossa formação, na nossa informação, na visão do mundo que vamos construindo e, principalmente, do mundo que queremos construir. Não há socialismo sem cultura (como não há cultura sem socialismo).
Hoje atira-se a Cultura para o território do secundário, do não prioritário, do que virá depois, se vier, do supérfluo, do acessório, do não urgente. Age-se como quem pensa: primeiro a paz, o pão, a saúde, a habitação, eventualmente a liberdade, só depois, então…
Como se a Cultura não estivesse directamente ligada a todas as outras coisas.
É o que a linguagem dos governantes traduz por «primeiro a política; depois a educação e a cultura, se houver tempo, se o orçamento chegar».
É esta prática que é urgente alterar, começando por nós, como organização, criando plataformas próprias de trabalho militante na área da Cultura, dando prioridade a este debate nas escolhas políticas do partido.
Não podemos acusar os outros de usar a Cultura como « flor na lapela» em dias de festa, se nós mesmos omitimos a Cultura do quotidiano da militância colectiva, da intervenção política do Bloco de Esquerda.
5 «Talvez os artistas mudem em arco-íris de cem cores a poeira cinzenta das cidades, talvez do alto dos montes ressoe sem tréguas a música fragorosa dos vulcões transformados em flautas, talvez as ondas dos mares sejam por nós forçadas a dedilhar as redes. De cordas esticadas desde a Europa até às Américas» — Maiakovski, 1918, «Carta aberta aos operários».
Estamos, mesmo, na Hora de Recomeçar!