Para além das eleições, a dificuldade da organização popular e da reinvenção da consciência de classe

Nestas eleições, a esquerda à esquerda do PS acantonou-se defensivamente a falar para o seu próprio campo (a esquerda, a esquerda, a esquerda…) e parecia contentar-se em capitalizar alguns juros políticos passados da geringonça. Colocava-se assim fora de jogo do grande desafio: havia um descontentamento imediato generalizado com o Partido Socialista, mais social do que “judicial” aliás, que não quis enfrentar com políticas de esquerda as crises que vivemos, e um descontentamento de longo prazo com o sistema político e o centrão que governa desde o pós-25 de Abril.

A escolha do “votem em nós que o PS voltará a ser governo e se votarem muito e nas condições certas, se os astros se alinharem, ele terá de fazer diferente” sendo sempre difícil de ter efeitos significativos neste contexto podia parecer a menos má dado o historial recente e de um ponto de vista recuado. Só que levanta a questão: quando (e se) será feito o luto da geringonça ou se se alimentará um mito eterno e se continuará a tentar vender a ideia de que um governo sobretudo revogatório do absolutamente pior que o antecedeu foi a melhor coisa que aconteceu nas nossas vidas e se é para ser repetido ad eternum.

Há uma outra tese que condicionou esta perspectiva e que tem uma história longa, no Bloco de Esquerda por exemplo. A escolha estratégica de disputar o espaço da “esquerda do PS” vem muitas vezes acoplada à ideia (abstracta) de que os zangados da política são irrecuperáveis. Ou seja, não valeria a pena falar para eles porque estes basear-se-iam em princípios inabaláveis como “são todos iguais” com os quais não poderia haver diálogo frutuoso possível. Esta tese, que é errada do ponto de vista substantivo porque deixa “ao abandono político” setores da povo explorado que à partida podiam passar do descontentamento difuso para a rebeldia transformadora, provou agora ser errada do ponto de vista da eficácia. Claro que se pode insistir no erro, continuar a menorizar estas pessoas e dizer que são só frustrados e apenas mobilizáveis pela extrema-direita. Mas isto seria compreender pouco do que passou e desistir do muito que temos de fazer.

Isto liga-se a outro pré-conceito com que parte da esquerda, pelo menos a direção do Bloco, tem funcionado: a ideia de que apresentar-se mais como alternativa de sistema do que como melhorador dele nos limitaria porque “assustaria as pessoas”.

É evidente que a extrema-direita tem uma enorme vantagem nesse campo que passa, não só mas também, por ser bem mais fácil deslocar o descontentamento para o ressentimento e para o ódio (e dirigi-los para baixo e não para cima), pela sugestão securizante de que se quer mudar tudo para que tudo fique na mesa e pela confusão cultivada sobre o que de importante no “sistema” se quereria mesmo mudar. Esta mudança de sistema na versão extrema-direita é portanto algo semelhante àquilo que alguém denominou um “significante vazio”, eficaz porque será preenchido pelo auditório de maneiras diferentes.

Mas para derrotar a extrema-direita é preciso disputar isso. Sou dos que têm há muito insistido que é um erro desistir do campo político da despolitização e do descontentamento. É um erro em termos eleitorais fundar uma estratégia apenas em afunilar a mensagem para quem já seja explícita e convictamente de esquerda e esteja indeciso em qual dos partidos desta área votar porque deixa um vasto campo à mercê do discurso da extrema-direita.

Mas o problema profundo está a jusante das eleições e por isso mesmo está sempre ao mesmo tempo ao virar da curva à nossa espera. Está precisamente em não se conseguir disputar estas pessoas e ficar-se a falar para os mesmos até, e por isso, sem criar as ferramentas indispensáveis para aumentar este campo.

Para isto, é preciso bem mais do que máquinas eleitorais sejam elas como forem. Porque aquilo a que temos vindo a assistir é um processo de politização à extrema-direita que desloca o “tabuleiro político”, muda o senso comum prevalecente e tem efeitos duradouros.

Há ainda que dizer que outro chavão que tem circulado, de que se combate a extrema-direita essencialmente melhorando as condições de vida das pessoas, fazendo-se passar por “materialista”, é idealista e cola-nos à incapacidade de mudar profundamente.

O avanço da extrema-direita dá-se por um cavalgar das forças mais reacionárias da burguesia à custa da derrota ou recuo dos movimentos sociais, populares, dos trabalhadores, de um ar dos tempos individualista, cultivado ideologicamente, e do avanço do neoliberalismo nas últimas décadas que deixou desamparados muitos dos “perdedores” deste jogo viciado.

O social-liberalismo dos partidos trabalhistas e socialistas é apenas um destes recuos mas é sistemático o suficiente para não se alimentarem ilusões num regresso maravilhoso da social-democracia tradicional e de que um governo que saia desta resolva significativamente os problemas das camadas subalternas.

Por tudo isto, realista é embrenhar-se na luta pela hegemonia profunda, mais complexa, menos feita de sound bites, com menos promessas de governos que resolverão aquilo que pela sua natureza não podem resolver. Realista é a esquerda saber apresentar-se como alternativa sistémica anticapitalista. Realista é a dificuldade da organização popular e da reinvenção da consciência de classe. Para isso não há táticas relâmpago nem atalhos brilhantes. É o combate de uma vida.

Carlos Carujo

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