Por Aan Gomes Branco, intervenção na XIVª Convenção do Bloco de Esquerda pela moção H
Camaradas, é hora de recomeçar – é hora de pegar nos pedaços soltos e reconstruir o nosso puzzle. Enfrentemos as tempestades que nos chegam do oeste sombrio, enfrentemos os ciclones que devastam a nossa democracia – mas façamo-los juntas, com olhar critico e mangas arregaçadas.
O que nos leva aqui hoje não deve ser só um pró-forma, um virar do disco e toca o mesmo. Deve ser uma reflexão profunda sobre como nós, como partido, como movimento cívico e político, pode melhorar e colmatar as nossas falhas. Está na hora de reavivar a militância de base e deixarmos o centralismo de lado. Os modelos com os quais nos regíamos estão esgotados – devemos admiti-lo sem qualquer vergonha, pudor ou tabu.
Vemos hoje espaços locais esvaziados, onde antes pulsava vida política. Esse vazio não surgiu do nada: foi consequência direta de um centralismo excessivo que, ao concentrar decisões no topo, sufocou a criatividade local, reduziu a autonomia e afastou do trabalho partidário camaradas que queriam fazer, criar, transformar.
Se queremos recomeçar, então afirmemos com clareza: precisamos de recuperar e reforçar a democracia interna, de devolver a voz às estruturas locais, de permitir que cada distrital, cada concelhia pense e decida o que melhor serve o seu território. Urge voltarmos a ser um partido construído de baixo para cima e não esta máquina invertida que se instalou.
A crise que o Bloco atravessa nasce também das nossas falhas, das escolhas que fizemos e das que adiámos. A responsabilidade é colectiva – é de todas nós, individualmente e das estruturas. E, por isso, é premente um novo modelo de liderança, verdadeiramente coletivo, transparente e descentralizado. A reconstrução do nosso partido será feita de tijolo em tijolo, partilhando tarefas e responsabilidades, garantindo rejuvenescimento, cultivando debate aberto, com práticas que derrubem hierarquias cristalizadas. Porque um partido das solidariedades tem de começar o trabalho pela sua própria casa.
Camaradas, não foi destino nem azar que nos trouxe aqui: foi a ausência de debate real, a repetição de práticas fechadas, o distanciamento progressivo das bases. Essas práxis cavaram um fosso de desânimo, desinteresse e alienação que hoje atravessa demasiados camaradas. Muitos deixaram de aparecer porque deixaram de se sentir ouvidos, valorizados ou chamados a construir. É por isso que temos de fomentar espaços de formação, de debate político e encontros locais onde a militância se possa reavivar. Militância esta que não pode ser vista como número para comícios, ou somente para colar cartazes e distribuir panfletos. A militância deve ser promotora de coletividade, de aprendizagem e ser o fogo de uma luta que se quer partilhada.
Mais do que nos espaços institucionais, é no território que devolvemos esperança às populações, que mostramos que o Bloco faz diferença e onde criamos comunidade. O trabalho autárquico deve ser uma disputa de paradigmas: combatendo a gentrificação, a dependência do mercado, a inacessibilidade da habitação, a desertificação do interior. Precisamos de garantir que o nosso trabalho local volte a ser feminista, antirracista, ecossocialista e anticapitalista. Para tal, temos de regressar às associações, aos núcleos de estudantes, aos sindicatos, aos grupos de bairro – a todos os espaços que nos permitem recolocar o Bloco no país real.
É precisamente esta falta de enraizamento local que contribuiu para a derrota eleitoral. Para inverter esta tendência, precisamos de promover a construção de núcleos locais, concelhias ativas e redes de apoio ao trabalho autárquico. No distrito de Leiria, um grupo de militantes das Caldas da Rainha está a reavivar a sua Concelhia, recuperando a autonomia e reorganizando o trabalho local de modo a garantir uma presença constante e coordenada na luta contra a precariedade laboral e pela defesa do ambiente, dos transportes e das comunidades que ali vivem. Queremos mais destes exemplos.
O que propomos é claro: reuniões locais abertas e regulares, visitas aos territórios por parte das distritais e de dirigentes nacionais; transparência total sobre o trabalho desenvolvido; apoio à criação de concelhias; e mais autonomia na ação política local. Não basta afirmar “descentralização” – é preciso mete-la em prática, todos os dias.
O recomeço só tem sentido se for feito com honestidade política e coragem. A extrema-direita cresce onde a esquerda falha em estar presente, e essa presença constrói-se no território, na capacidade de estar ao lado das pessoas.
Camaradas, é hora de reconstruirmos um Bloco mais aberto, mais democrático, mais diverso e verdadeiramente enraizado — e este caminho só ganha força se o fizermos juntas. É hora de recomeçar. Agora não é tarde nem é cedo – está na hora de fazer a luta toda, pelo que ainda faz falta – arregacemos as mangas e vamos à luta!