Estas eleições legislativas mostraram uma crise do centrão, uma ascensão da extrema-direita e uma derrota da esquerda.
Num contexto de demissão do governo por um caso judicial (ainda não esclarecido), de crise do aumento do custo de vida, da habitação, de desinvestimento permanente na educação e na saúde, de aceitação eterna da contração do investimento público, a rejeição das políticas do Partido Socialista é evidente, sem que a direita tradicional tenha conseguido capitalizar isso.
Há que ter em conta que a crise do centrão e dos sistemas demoliberais é anterior e vai bem além deste contexto. Os seus sintomas são há muito sentidos e saber interpretá-la (e agir em consonância) é uma das tarefas a que nos devemos propor.
O crescimento da extrema-direita alimenta-se dela. Um pouco por todo o mundo ocidental, nutrida pelo dinheiro do capitalismo reacionário, pelos efeitos de décadas de neoliberalismo e de social-liberalismo, facilitada pelos recuos organizativos populares das últimas décadas, verifica-se esta tendência. É uma marca da nossa época, que nos impõe como tarefa urgente reiventar o antifascismo.
Não há nenhuma receita fácil para anular o avanço do ultra-reaccionarismo em Portugal ou no mundo. Mas o seu discurso anti-sistema, a sua captura do descontentamento e deslocação para a engrenagem do ódio tornam-se mais fáceis sempre que é possível confundir a esquerda com este “sistema” e quando o plano da alternativa de fundo que esta deverá protagonizar é totalmente eclipsado por um suposto pragmatismo político de curto prazo e de ganhos temporários.
PCP e Bloco de Esquerda, presos à memória da geringonça, não conseguiram mobilizar a rejeição do PS, obtendo resultados decepcionantes. O PC mantendo uma preocupante trajetória de queda, que terá outras razões substantivas, o Bloco estagnando no que tinha anteriormente sido uma derrota eleitoral pesada. 50 anos passados do 25 de Abril, as forças hoje mais representativas da vontade de construir uma sociedade livre de opressões terão um percurso imediato nada fácil e em que será preciso somar forças, juntar esquerdas e movimentos sociais para além de qualquer sectarismo.
Nessa caminhada, o Bloco de Esquerda precisa de se recentrar. De partido parlamentar e mediático, de discurso reformista dirigido à “esquerda do PS” e limitado ao mito do eterno retorno da geringonça para um partido capaz da luta pela hegemonia profunda e dirigido ao enraizamento e organização popular para os quais não há atalhos. Para isso, também o anti-capitalismo não pode ser só uma bandeira para dias de festa ou um conceito memorial remetido aos estatutos e afastado quando parece inconveniente. É pelo anti-capitalismo que vamos. É ele a melhor barreira ao crescimento de fascismos e a melhor arma contra as agressões capitalistas.
Durante a campanha do Bloco, foi feita uma denúncia do poder dos donos de Portugal e de quem estes financiam. É preciso prolongar esse discurso em toda a atuação do Bloco, dando-lhe uma enorme centralidade.
Para isso é preciso distinguir a direção de extrema-direita da esmagadora maioria dos seus votantes. É preciso não hostilizar quem viu no Chega uma forma de expressar a sua raiva pelos problemas quotidianos de enfrenta, e disputar cada uma dessas pessoas. É preciso estimular uma militância eletrizante que, aliando trabalho de base com campanhas de fundo anticapitalistas, consiga resgatar a esquerda como expressão da raiva contra o capitalismo e da forma de o superar.
É preciso, por outro lado, promover o regresso daquelas e daqueles que, desiludidos, se foram afastando do Bloco ao longo dos anos. Nunca seremos a mais para este esforço de tranformação das nossas vidas.