Na moção H, procurámos partir da análise sobre o mundo em que vivemos para identificar aquelas que consideramos serem as respostas fundamentais que a esquerda anticapitalista tem de esboçar no momento presente. Terminámos o texto da moção a esboçar como é que o Bloco se deveria organizar internamente para responder às necessidades políticas identificadas. E é este último ponto que procuramos aprofundar neste texto, mesmo que de uma forma breve. Fazemo-lo porque sabemos que perceber o que deveria mudar não basta: é preciso compreender como mudar. Aquilo que aqui trazemos não é uma proposta fechada e final, mas um esforço de compreensão coletiva que abra espaço à discussão e participação de toda a militância do Bloco.
Se a necessidade de um partido com caraterísticas fundamentalmente diferentes das existentes já se justificava anteriormente, as eleições legislativas de 2025 confirmaram o desmoronamento de uma conceção política do socialismo baseada sobretudo na via mediática, decidida e visibilizada por pouca poucas vozes, replicando os modelos dos partidos tradicionais. O partido anticapitalista não deve abdicar de disputar o espaço mediático existente, mas sem ilusões sobre os enormes limites que o caraterizam: tem de estar socialmente enraizado para ter outros canais de influência e de agregação de forças. E, então, como o fazer?
Primeiro, pela coletivização do processo de construção de partido. Em vez de a decisão estar centrada num número reduzido de figuras, o Bloco deve construir-se de baixo para cima. Nas estruturas distritais e concelhias, nos grupos de trabalho, os existentes e outros por criar, nos núcleos de militantes, etc., devem fervilhar ideias e propostas, devem ser preparadas ações e discutidos os seus sucessos e insucessos. Isto implica que encaremos toda a nossa militância de uma forma diferente: em vez de reuniões de militantes onde falamos genericamente da situação política – e não haverá muitas divergências entre nós sobre a natureza da política da direita no poder, nem sequer sobre a do PS – devemos virar do avesso o que aí fazemos. A presença de dirigentes ou representantes em cargos públicos do Bloco deve aí servir não para apresentar a lógica da intervenção que o Bloco tem seguido e seguirá; pelo contrário, deve servir para discutir e decidir coletivamente a intervenção que o Bloco deverá fazer. Evidentemente: não dizemos que na reunião de uma determinada Concelhia sejam definidos todos os rumos do Bloco para os meses seguintes, mas antes que os contributos discutidos nas várias Concelhias, nos vários grupos de trabalho, recolhidos pelas diferentes direções locais, nacionais e temáticas, devem ser a base para a decisão sobre a vida do Bloco.
Reconhecemos que este processo é mais trabalhoso do que uma forma menos participada de encarar a política. Contudo, parece-nos que esse trabalho acrescido é desejável, porque constrói um partido mais coeso, mais preparado para atender às diferentes sensibilidades internas e geográficas do Bloco, um partido em que os militantes não entram e se afastam por sentirem que não têm de facto um espaço onde possam ter espaço e voz.
Segundo, consideramos que, para além desta democratização e promoção do primado da construção coletiva do Bloco, é necessário fazer coisas qualitativamente diferentes. Devemos continuar a procurar articular uma boa intervenção nos órgãos de representação em que somos eleitos. Mas sabemos que isso é demasiado curto para as tarefas que temos pela nossa frente – a quantas pessoas chegará a intervenção que fizemos no Parlamento? E a quantas destas chegará sem ser manipulada e ridicularizada? E quantas daquelas a que a mensagem chega sem manipulações a sentem como uma tentativa genuína, feita por iguais, de transformar o mundo num sentido emancipatório e desinteressado?
É, por isso, necessário construir um partido que construa raízes no território. Um partido que não seja alheio à comunidade, mas que se constitua antes como um espaço afetivo no qual as pessoas se revejam para lá da espuma dos dias. E, para o fazer, é preciso ter trabalho feito nas comunidades, na rua. Isto significa que precisamos de nos colocar na linha da frente na participação em associações de moradores, em coletividades, em sindicatos, no apoio concreto a quem precisa. Significa que devemos apoiar as pessoas que vivem em barracas ou que se veem sob ameaça de despejo; que devemos fazer porta-a-porta fora dos momentos eleitorais; que devemos investir fortemente na construção de redes de solidariedade que perdurem no tempo.
Este trabalho já é feito por alguns camaradas. Encará-lo como um esforço e uma necessidade coletivos, transversais a todo o Bloco, permitir-nos ia não apenas reduzir distâncias entre a base e o topo, como ser um partido diferente. E ser encarado popularmente como estruturalmente diferente dos outros partidos: não o partido dos profissionais que pretendem ser eleitos para manter ou reforçar o seu poder, mas o partido da Ana, do Carlos, do José e da Maria, que são gente como nós e que estão a construir comunidade connosco.
Sabemos que o que aqui propomos não é fácil nem se implementa em dois dias nem pela mera vontade. Mas também sabemos que é possível – e que é a escolha necessária para que a esquerda socialista saia do seu estado de anemia e impotência política e se torne a força fundamental para superar o liberalismo e o fascismo.